Lula "esmagou" o bolsonarismo?
Por José Luiz Gomes da Silva · 1 de novembro de 2026

A vitória de Lula foi uma vitória histórica para o país e não apenas para o morubixaba petista. Na contingência de uma derrota para forças retrógradas do bolsonarismo, representada pelo herdeiro do espólio político do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, Lula liderou a reversão de uma situação que poderia esmagar as nossas conquistas democráticas. Na nossa época do batente de sala de aula, costumávamos ler com frequência os textos do sociólogo jamaicano, Stuart Hall, um dos mais ilustres representantes da escola inglesa dos Estudos Culturais. Num dos seus principais livros, Hall faz referência aos danos de uma disputa, seja acadêmica ou política, centrada apenas em dois polos. Academicamente, por uma deliberação pessoal, o pesquisador deixa de ver muitas nuances de um determinado fenômeno social. Do ponto de vista político, vaticina o sociólogo, o embate só termina quando um dos polos esmaga o outro. Um dos dados assustadores - porque talvez existam outros ainda mais preocupantes - é o total desprezo dos bolsonaristas pelas instituições e valores democráticos. Isso fica evidente nas tessituras acerca de um eventual golpe de Estado no passado, assim como na negação hoje de uma eleição limpa, vencida nas urnas, sem quaisquer episódios que pudessem macular sua legitimidade. A democracia não é um valor para o bolsonarismo. Resíduos dos danos dessa polarização perniciosa podem ainda hoje serem observados, por exemplo, nos exemplos descritos hoje pela manhã, quando abordamos o caso do O Beira Festival, um encontro artístico que foi realizado em Petrolina, Sertão do Estado de Pernambuco, apenas viabilizado através de uma vaquinha emergencial, uma vez que o patrocinador, ao perceber que o grupo de artistas poderia ter votado em Lula, cancelou o patrocínio do festival. Depois da vitória de Lula, o núcleo duro do bolsonarismo encontra-se completamente aturdido. Alguém sugeriu ontem que o próprio Bolsonaro pode ser sequestrado pelos Estados Unidos, país onde hoje vivem dois dos seus filhos. Trata-se, naturalmente, de uma especulação, mas algo sugere que o exílio da família não seria uma possibilidade remota. Michelle Bolsonaro, mesmo sendo eleita senadora pelo Distrito Federal, não conta com o apoio da família para projetar-se como herdeira do espólio do bolsonarismo. Os bolsonaristas são tão ciosos dessa herança politica que, ontem, já líamos algumas críticas às movimentações do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, que poderia liderar uma direita mais consequente, sem urticárias dos valores da democracia representativa. Tarcísio, inclusive, foi um dos primeiros apoiadores de Flávio Bolsonaro a reconhecer a legitimidade da vitória de Lula. Aquele cidadão que corria o risco deixar a vida pública com uma derrota, pode deixá-la como o homem que "esmagou" o bolsonarismo. Com o apoio inestimável de amplos setores da sociedade civil brasileira, sem o qual hoje poderíamos todos estar temerosos dos chamados "decretaços" que já seriam previstos. A situação do país não é das melhores. Teremos problemas de governabilidade e, principalmente, no tocante à responsabilidade fiscal, onde nossos déficits aumentam perigosamente. O Governo Lula 4 precisa ficar muito atento a essa questão, principalmente quando se sabe que o pacote de bondades que antecedeu a eleição foi ofertado sem lastro. Em todo caso, é um grande alívio saber que enfrentaremos os gargalos da democracia substantiva através dos mecanismos da democracia política. Precisamos de mais algum tempo - e possivelmente estudos e leituras - para concluir se o morubixaba petista aplicou, de fato, um golpe de misericórdia no bolsonarismo, esmagando-o completamente. Eles, no entanto, pelo andar da carruagem política, acusaram o golpe, meu caro Stuart Hall.


